ARARA da VGX – Organização, População e Atividades Produtivas.

Organização social

A aldeia tem como “chefe” Leôncio Ferreira do Nascimento, elo entre a história passada e a história recente. Ele preparou seu neto José Carlos Ferreira da Costa Arara, para liderar seu extenso grupo familiar. Essa liderança tem como atributo tratar das questões de ordem política no campo da educação, saúde, território e demais situações que possam surgir. Entretanto, sua decisão final é baseada na consulta feita a comunidade. Tal atitude é respeitada pela liderança, a qual tem a aprovação dos núcleos familiares. Assim, José Carlos consegue liderar o grupo com a autonomia a ele conferida.

Vale observar que do deslocamento do rio Bacajá para o rio Xingu e as grandes mudanças ocorridas na segunda metade do século XX, o número populacional, assim como a estrutura socioeconômica cultural se firmaram. Esta modificação possibilitou a reorganização do espaço físico da aldeia, assim como favoreceu a reprodução física e cultural.

POPULAÇÃO

Em seus relatos Ananum informou que na época do deslocamento entre o rio Bacajá para o rio Xingu, no século XIX, dos 50 indígenas que fizeram a viagem – entre homens, mulheres e crianças – somente 20 chegaram a esta localidade. A fome e a gripe dizimaram boa parte do grupo.

Em 2009/10 a aldeia com 17 famílias estava assim distribuída: 16 homens na faixa etária entre (16 a 70 anos), 27 mulheres (16 a 73 anos), 13 homens jovens (14 anos), 13 mulheres jovens (12 anos), e, por último, 43 crianças (25 meninos e 18 meninas) perfazendo um total de 112 indivíduos. Foram  estas famílias que participaram dos estudos realizados entre 2009/2010 para diagnosticar as mudanças que ocorrerão com a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e o asfaltamento da BR-230 Transamazônica.

 

ATIVIDADES PRODUTIVAS 

Os Arara vivem do rio Xingu, Bacajá e da mata, os quais lhes oferecem, a sobrevivência econômica, social física e cultural. As alterações ocorridas na região não foram, até agora, o suficiente para mudar radicalmente os costumes e as tradições de cultivo da terra, coleta e utilização dos rios. As relações que mantêm com a terra e com o meio ambiente se perpetuaram por esses anos. O mesmo não se poderá dizer com a chegada de Belo Monte.

Os Arara têm um calendário organizado das atividades que desenvolvem durante o ano, mas nem sempre conseguem garantir o alimento, em quantidade suficiente para suas famílias na aldeia. A pesca, a caça e a produção de farinha são as únicas exercidas o ano todo. Portanto, dividem seu tempo com os demais trabalhos que precisam ser feitos e que trazem renda monetária.

Nos meses de janeiro, fevereiro e março fazem à coleta de castanha, pescam, caçam e fazem farinha. Na aldeia Wangã a farinha é feita para consumo e a dividem com os que não conseguiram produção suficiente. Além disso, negociam com os vizinhos não indígenas ou levam para o mercado em Altamira por $15 reais a lata ou $60 reais o saco de sessenta quilos, a troca por outros produtos pode ocorrer, dependendo das necessidades.

Em abril, fazem o cultivo da roça para o plantio do feijão e da fava, que deverão ser colhidos no meio do ano. Em junho, além da caça, pesca, produção de farinha, os Arara fazem a coleta do milho e do arroz, que vai até julho. Ainda em julho fazem a preparação da roça (limpeza ou a derrubada da mata virgem para nova roça), que vai até o mês de outubro. Em agosto, ocorre à derrubada da mata, para queimá-la em setembro. Em setembro, enquanto uns fazem a queimada da mata que foi derrubada, outros providenciam a coivara (tiram os paus, limpam a área para a plantação) e a limpeza da capoeira. Em outubro, ocorre a coivara. Em novembro, os Arara começam a plantar, arroz, mandioca, milho, cará, batata, macaxeira, banana, melancia, abacaxi, que vai até novembro ou dezembro.

Assim, a dieta alimentar básica depende do peixe apanhado no rio Xingu e Bacajá, da farinha de mandioca produzida na aldeia e de alguns produtos obtidos nos mercadinhos da vila Ressaca, ilha da Fazenda ou barcos-comércio. A principal fonte de renda monetária vem da venda das caixas de castanha, da pesca do acari, da contratação por empreitada para desmatar roças para vizinhos. Os meses de verão – junho a novembro – são considerados de fartura na aldeia, os de inverno – dezembro a maio – são considerados meses de escassez, que exige uma utilização equilibrada do dinheiro que entra. É importante considerar que nem todas as famílias pegam em dinheiro, a menos que realizem algumas dessas atividades remuneradas.